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Uma moto, 2 ilhas e 35 milhões de ovelhas

Todo mundo já deve ter ouvido que “viajar é a única coisa na vida que você compra e que o deixa mais rico”. Por mais que o gerente de seu banco discorde disso, sabemos que hoje em dia sobra muito pouco tempo para o descanso, logo, quando aparece a oportunidade de poder ter alguns dias de folga, corremos para aproveitar esse tempo da melhor maneira possível.

Comigo também funciona assim, entretanto, acredito que viajar simplesmente por viajar tem o mesmo significado que ir ao dentista só para folhear as revistas da recepção. Para evitar que as viagens acabem por se tornar passeios sem sentido, sempre procuro determinar um objetivo simples e claro para cada viagem, assim, trago comigo não apenas memórias bacanas e aquelas fotos que a gente raramente manda imprimir, mas também um senso de conquista e de dever cumprido. A escolha pela Nova Zelândia não fugiu a essa regra.

VIAJAR COM UM SONHO NA MALA

Meu pai uma vez me disse que a paixão do homem por motos remonta à época em que o cavalo era o único meio de transporte. Por mais que eu acredite nisso com a mesma intensidade que acredito em fadas, acabei crescendo apaixonado por motos, e, sempre que posso, faço viagens sobre duas rodas. O motivo é simples, estar em duas rodas oferece um nível de contato sem igual com o trajeto e com o entorno. É mais perigoso, sim, pois sempre chove e as costas doem. Mas, para quem está preparado para essas questões e tem menos de 95 anos, tudo tende a correr bem.

Essa paixão me fez conhecer um camarada chamado Burt Munro, motociclista neozelandês detentor do recorde mundial de velocidade em motos abaixo de 1.000 cilindradas, que inspirou o filme “Desafiando Limites” (The World’s Fastest Indian, 2005), estrelado por Anthony Hopkins. Até aí, nada demais. São centenas os recordistas desse tipo, mas uma coisa me chamou a atenção: Burt conquistou seu recorde mundial depois de 20 anos de tentativas, no ano de seu aniversário de 68 anos. Por isso decidi visitá-lo, não pelo recorde, mas por sua capacidade de perseguir um sonho, mesmo beirando os 70 anos.

O objetivo estava definido, e a viagem seria para encontrar Burt, que provou que nunca é tarde para sonhar e conquistar nossos sonhos.

A MORADA DO HERÓI

Burt era da pequena cidade de Invercargill, no extremo sul da Nova Zelândia, a mais de 2.350 km da principal cidade do país: Auckland. A Nova Zelândia é um país territorialmente pequeno, composto por duas ilhas separadas pelo Estreito de Cook. O trajeto escolhido para a viagem seria cumprido de moto, em um período de 9 dias. Meu objetivo era percorrer 4.205 km a partir de Auckland, no norte da Ilha Norte, pilotando até o extremo sul da Ilha Sul e retornando à principal cidade do país.

OLGA, UMA PARCEIRA IDEAL

Escolher a parceira certa não é tarefa simples, Fabio Jr. que o diga. Tem gente que passa a vida toda culpando o outro pela relação que chegou ao fim, crente de que, se ela passasse menos tempo na casa da mãe, ou ele no futebol, as coisas seriam diferentes. Mal sabem eles que alguns ciclos são mais curtos que os outros, e que, muitas vezes, o inevitável fim na verdade só marca a hora de começar um novo roteiro. 

Mesmo assim, testemunhamos uniões que desafiam o estilo de vida do pai da Cléo Pires e provam que o tempo pode ser aliado de um casal, desde que os objetivos sejam comuns, que haja admiração mútua e fones de ouvido. Um relacionamento pode começar em um bar, uma sala de aula, pela internet ou em qualquer lugar onde haja espaço para que as afinidades aproximem duas partes. Comigo foi no fundo de um quintal.

Era uma garagem velha, nos fundos de uma loja de pranchas de surf em North Shore. Foi lá que conheci Olga, uma alemã grandalhona, meio pesada e com um olho maior que o outro. Confesso que jamais escreveria essas coisas sobre alguém, mas como ela não sabe ler, me sinto à vontade em dividir com vocês os atributos da moça. Nosso primeiro contato foi frio, coisa de alemão. Ela sem bateria, eu arreado pelo jet lag, que me deixou resfriado. O canábico mecânico instalava o GPS, enquanto eu pensava se daria conta de uma alemã daquele tamanho, mas, ao montar nela, percebi que teríamos uma relação feita de pura compreensão.

Nesses termos começou meu caso com fräulein Olga, minha companheira pelos próximos 4.000 km do lado errado da estrada (na Nova Zelândia, se dirige na mão inglesa). Menina de eficiência alemã equipada para me proteger, cuidar de mim e fazer com que tudo corresse bem.

NUMA TOCA NO CHÃO VIVIA UM HOBBIT

Fiz o primeiro trecho da viagem partindo de Auckland rumo a uma cidade de baixíssima taxa de criminalidade, cujo nome, portanto, é injusto: Matamata. É lá que fica um dos sets de filmagem das trilogias “O Senhor dos Anéis” e “O Hobbit”. Uma atração imperdível para quem é fã da série e até mesmo de cinema. De lá, rumei mais 135 km para o sul, em direção à cidade de Taupo, na beira de um lago homônimo. Uma simpática cidade polo de esportes aquáticos e recheada de adolescentes do mundo todo, que me fizeram sentir como um velho em uma festa de formatura de oitava série promovida pela ONU.

E SE EU FOSSE O PRIMEIRO CASO DE EBOLA DA NOVA ZELÂNDIA?

O relógio marcava 6 da manhã em Taupo quando meu despertador biológico tocou. A dor no corpo era tanta que primeiramente suspeitei estar soterrado, vítima de um dos terremotos daqui, mas essa hipótese acabou descartada assim que abri os olhos. Doíam as pernas, as costas e até a ponta dos dedos, fatos que, somados à tosse de cachorro velho e ao nariz gotejante, me fizeram diagnosticar o óbvio: sou o primeiro caso de ebola da Nova Zelândia. Mesmo vitimado de tamanha enfermidade, me lancei rumo a Wellington, capital do país e último destino na Ilha Norte, afinal de contas, se for para espalhar um vírus, que seja numa cidade grande, certo? Errado, pois não existe tal coisa na Nova Zelândia.

Desde que saí de Auckland, surpreso com aquele ar de cidade média do Colorado, fiquei esperando conhecer o lado cosmopolita do país Kiwi – termo usado para definir o país e os habitantes locais –, mas as cidades só foram encolhendo. Quando cheguei à capital, segunda maior cidade do país, atrás da própria Auckland, percebi que a Nova Zelândia pode ser definida como um país densamente ocupado por ovelhas e algumas comunidades humanas salpicadas aqui e acolá.

Durante as aproximadas 5 horas de viagem, contei 978.922 ovelhas espalhadas em campos verdinhos pela estrada – daqueles cultivados pelos Teletubbies –, enquanto o número de humanos não chegou nem perto disso. São 4.4 milhões de homo sapiens contra 35 milhões de ovelhas. O fato de esse país ter uma densidade populacional tão baixa explica algumas curiosidades, como praticamente toda estrada ser de pista simples. A princípio, isso me preocupou, mas logo em seguida percebi que estradas estreitas não são problema, já que, onde tem pouca gente, tem pouco carro.

A mesma coisa serve para as compras. Brasileiro que se preze abre a mão assim que passa do primeiro duty free, mas aqui não tem free shop, shopping ou qualquer outra coisa que não sejam lojinhas de artigos convencionais. Se você é um turista ávido por comprar, prepare a mala para voltar com quilos de imãs de geladeira. Demorou um pouco para que eu percebesse que o que há de melhor neste país não tem preço.

No dia que rodei quase 400 km de estrada, a temperatura caiu para 10 graus e, à medida que o termômetro baixava, a paisagem alternava entre campos vulcânicos, montanhas nevadas e florestas de pinheiros – tudo grátis – até chegar à charmosa Wellington. A cidade tem um quê de Riviera Francesa, mas sem os franceses, sem os euros e sem os óculos de sol cafonas. Uma cidade linda e amigável – do jeito que os neozelandeses sabem ser –, capaz de espantar qualquer coisa ruim, até mesmo uma tosse chata.

O FILME DA SUA VIAGEM MERECE UMA TRILHA SONORA

Para mim, a vida com trilha sonora fica mais interessante, e numa viagem dessas sempre tento encaixar o que está tocando no fone de ouvido com o que está acontecendo à minha volta. Foi nesse clima que acordei para pegar o Ferry Boat que atravessa o Estreito de Cook. São 21 km de mar que separam a Ilha Norte da cidade de Picton, porta de entrada da Ilha Sul da Nova Zelândia. A caminho do porto, esperava encontrar, como bom curitibano escolado em Ferry Boat, uma versão melhorada das nossas embarcações guaratubenses, que dão show de glamour e barquilha.

Entretanto, a trilha sonora mudou drasticamente ao me deparar não com a reencarnação do Bateau Mouche, mas sim com um pequeno navio de cruzeiro, só que com garagem. O Ferry Boat Interislander, que faz a travessia de 3 horas, tem wi-fi, lojinha, dois restaurantes e tudo para fazer o tempo passar rápido sem que alguém sinta falta da barquilha.

Durante a viagem, as músicas foram variadas, e sempre de acordo com o tema. Tem a obrigatória trilha do Eddie Vedder para “Into the Wild”, música eletrônica do Kaskade para animar, horas de “Harvest Moon”, do Neil Young. E a melhor trilha para descrever a chegada à Ilha Sul é “In the Flesh?”, do Pink Floyd. À medida que o navio se proximava daqueles paredões de pedra no meio da ventania, as guitarras de Roger Waters cresciam, o volume subia e tudo anunciava em alto e bom som que aquele lugar não era comum. A travessia não é barata: N$ 120,00, o que significa pouco mais de R$ 250,00, mas vale cada nota.

Três horas depois, eu desembarcava em Picton para percorrer algumas das mais bonitas estradas que já vi. Nos 345 km até Christchurch, o tempo marcava 22ºC secos. Clima perfeito para rodar. A estrada deixava o Pacífico à minha esquerda, uma cordilheira de montanhas nevadas à minha direita e uma vontade de não chegar nunca à minha frente, na medida em que para trás já ficava a saudade. “Ramble On” embalou um dos momentos mais sensacionais da viagem.

Mas quando o caminho é bonito, o trajeto é feito muito rápido, e a gente nem percebe que chegou. Christchurch logo surgiu no horizonte. Imaginei que entrar naquela cidade dizimada pelo terremoto de 2011 pediria uma música triste, mas já nos primeiros quilômetros encontrei uma cidade nova, viva e muito simpática, de arquitetura em estilo inglês. Porém, ao andar a pé pela cidade, ainda se encontra cicatrizes da tragédia. Pior que casas destruídas, me deparei com restaurantes abandonados e casas vazias. Tudo deixado exatamente como estava na hora do tremor: pratos nas mesas, cadeiras no chão e uma lembrança amarga de quem manda nisso tudo.

DIFICULDADES ATÉ QUEENSTOWN

Admiro muito o trabalho do Roberto da Matta, uma das cabeças mais inteligentes de nosso país. Em seu ótimo “Fé em Deus e Pé na Tábua”, o antropólogo relaciona o grau de civilidade de uma nação com seu comportamento no trânsito, o que, via de regra, coloca países desenvolvidos como nações de trânsito calmo, enquanto países como o Brasil acabam enquadrados na categoria GTA V de trânsito.

Só tenho uma coisa a dizer sobre isso: Betinho, meu querido, errou rude. Venha dirigir aqui na Nova Zelândia que na semana seguinte ajudo a recolher seus livros das prateleiras até a versão atualizada sair com a inclusão do capítulo: “Motoristas kiwi: quando o excesso de experiência atrapalha”.

Prova disso aconteceu na saída de Christchurch, onde por pouco não fui atropelado por um simpático senhor que, com atitude de quem estava coberto de razão, furou uma preferencial. A Nova Zelândia é um país com muitos idosos, e conversando a gente percebe que aparentemente o jovem kiwi quer tudo, menos passar a juventude na ilha. Acabam saindo mundo afora – principalmente para terras australianas e britânicas –, voltando à terra natal apenas para viver seus últimos anos, cuidar dos netos e furar preferenciais.

Passado o susto, o mais longo dia de viagem foi o mais solitário e difícil. Logo na saída de Christchurch, um forte vento lateral começou a bater e me acompanhou por pelo menos outras três horas. Vento forte, quando se está de moto, não é algo muito agradável. Instintivamente, acabasse compensando a força do vento inclinando a moto na direção oposta, para que as forças se neutralizem. Eu estava dirigindo assim, até que passou um caminhão, cortando o vento que me apoiava, e acabei mergulhando no sentido oposto. Um ziguezague chato que teve sua recompensa: os lagos de Tekapo e Pukaki. Só no Lago Pukaki devo ter parado umas cinco vezes para fotografar seus diferentes ângulos, um mais bonito que o outro, o que faz dele, sem sombra de dúvida, a Scarlett Johansson dos lagos.

A sinuosa estrada seguiu passando pela minúscula Twizel, até que no meio da tarde cheguei a Queenstown, a mais charmosa cidade da Nova Zelândia.

UM POUQUINHO DE BRASIL IA-IÁ

Brasileiro que se preza sabe o que é bom. Queremos sempre a melhor comida, as mulheres mais bonitas – mesmo que seja a do cara ao lado – e escutar nossa música, normalmente um funk-ostentação que eleva nossa popularidade com os colegas do ônibus no caminho para o trabalho. Esse jeitinho de ser faz com que não passemos despercebidos onde quer que estejamos, ainda mais se a bocada for das boas.

Talvez esse orgulho de conquistar o primeiro lugar na fila, inclusive nos lugares mais legais do mundo, explique por que Queenstown tem tantos brasileiros. Hoje somos 20% da população local, prova de que o povo kiwi é muito acolhedor e paciente.

Mas eu entendo a brasileirada gostar tanto daqui. Queenstown é de longe a cidade mais bonita da Nova Zelândia segundo 10 entre 10 neozelandeses, com seu clima de estação de esqui que tomou um porre de vodca com energético. Aqui você tem o visual alpino desse tipo de local misturado à obsessão por esportes radicais estampada em cada esquina, em cada habitante.

QUANDO O FIM REPRESENTA UM COMEÇO

Sair de Queenstown, com seus bungee-jumpings e bebedouros públicos de adrenalina, não foi fácil, mas esse seria o trecho final até meu encontro com Burt. A estrada até Invercargill foi diferente. Mais tensa.

Depois de um trecho curto de pouco mais de 2 horas finalmente cheguei ao museu de Burt Munro, que fica dentro de uma loja de ferramentas. De lá, rumei para meu sonhado encontro com Burt no Eastern Cemetery. Burt faleceu em 1978. Ainda me restava a volta mas o objetivo da viagem estava cumprido. Lá, em frente a uma lápide, não me restou muito a não ser fazer uma prece e deixar uma carta.

09 de Setembro de 2019
Por  Lipsio Carvalho

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Cinthia Paranhos é ex-publicitária e ex-empresária, e atualmente viaja o mundo fotografando o mar, ondas gigantes, céus estrelados, neve e auroras boreais. Ela adora o Havaí e conta para a Wood’s Magazine o que mais a encanta nessa região conhecida pelas ondas e seus cenários paradisíacos.

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