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Uma aventura pelas exóticas paisagens da Bolívia e do Chile; Confira

“Quem tem espírito aventureiro não se contenta com lugares comuns. A vontade de conhecer terras novas e de experimentar extremos é o que me impulsiona para destinos diferentes, que quase nunca estão na lista de quem planeja uma viagem.”

Foi assim que embarquei para uma das regiões mais secas e desafiadoras do mundo. Com áreas onde a chuva não chega há pelo menos 20 milhões de anos, a rota dos desertos que liga a Bolívia ao Chile tem paisagens incríveis, mas muito desafiadoras. E, embora o Atacama seja o mais famoso entre eles, os desertos de Siloli e Nor Lípez completam, junto com o Salar de Uyuni, o meu frenético roteiro.

É em Santa Cruz de La Sierra que começa minha viagem. A segunda cidade mais importante da Bolívia é pouco atrativa, bem diferente de Sucre e de Potosí, que estão na minha rota antes de chegar a Uyuni. Essa cidade simples é o ponto de partida para quem quer conhecer o maior deserto de sal do mundo e uma das principais atrações da Bolívia.

Com mais de 10 mil quilômetros quadrados, o Salar de Uyuni é um destino intrigante e surpreendente. Nos meses chuvosos, de dezembro a março, o Salar fica coberto por uma camada de água que provoca o que eles chamam de espejismo, um cenário que une céu e terra em um jogo de reflexos.

Atravessando o imenso Salar, chego à Isla Incahuasi. Com mais de 24 hectares, essa pequena montanha tem abundância de uma espécie de cacto gigante que produz uma madeira cheia de furos, com a qual os nativos fazem peças de decoração e até casas. Humilde e muito simples, a vida nessa região se completa com o pouco que o turismo e a extração artesanal do sal proporcionam.

Poucas também são as opções no meio do nada. Antes que a noite chegasse, era preciso me abrigar. Hospedo-me em um hotel todo feito de sal: parede, chão, cama, cadeira e mesa. Tudo é de sal. Aqui, sob um frio que chega bem perto do zero grau, água quente é luxo e custa vários bolivianos. A noite será curta e o meu segundo dia de viagem pela rota dos desertos vai começar cedo.

DESERTO DE SILOLI

Apesar de ficar na Bolívia, o deserto Siloli é considerado parte do Atacama. Aqui, minha aventura começa aos pés do vulcão Ollagüe, que expulsa uma constante fumaça de seu interior, como sinal de que ainda está vivo, ativo e que a qualquer momento pode entrar em erupção.

No Siloli, encontro ainda a Árbol de Piedra, uma curiosa formação rochosa semelhante à uma árvore. Esculpida pelos fortes ventos do deserto, ela está localizada no caminho para a Reserva Nacional de Fauna Andina Eduardo Avaroa, uma gigantesca área de proteção ambiental que atrai muitos visitantes.

Avançando mais 18 quilômetros, chego à Laguna Colorada, que para muitos é o ponto mais esperado do roteiro. Esse lago de água salobra e de tom avermelhado já está dentro da Reserva, bem na fronteira com o Chile.

A coloração das águas, dizem os cientistas, vem da proliferação de um determinado tipo de alga e nada tem a ver com a cor dos flamingos vistos com frequência por aqui.

Na manhã seguinte, é hora de ver o esplendor dos gêiseres – pequenas aberturas no solo, de onde, de tempos em tempos, sobem colunas de vapor e água quente. Essas curiosas formações da natureza, somente vistas em áreas vulcanizadas, são melhor observadas pela manhã, logo nos primeiros raios de sol. Para isso, é preciso acordar bem cedo. Eu levantei às 4 horas, sob um frio congelante de cinco graus.

Conhecido como Sol de Mañana, esse campo de intensa atividade vulcânica tem mais de 10 quilômetros quadrados e está entre 4,8 e 5 mil metros de altitude. Logo, qualquer caminhada parece muito esforço, já que o cansaço e a falta de ar podem nos deixar para baixo.

A minha próxima parada é na Laguna Verde, que está bem ao lado da Laguna Blanca. Com 1,7 mil hectares, a lagoa tem essa cor devido à grande concentração de arsênio e outros minerais que estão suspensos em suas águas. Nem sempre você verá o lago num tom de verde extremo, já que a cor pode variar entre o turquesa e o verde-esmeralda, dependendo do grau de sedimentação da água, que é influenciado pelos ventos.

Depois de uma volta, passo pela portaria da Reserva. Aqui está uma piscina de águas termais onde muitos turistas se banham. Para falar a verdade, não vi muita graça nessa poça d’água. Talvez fique mesmo difícil achar qualquer piscininha atraente depois de ter nadado no Ojo del Inca, um lago de águas aquecidas naturalmente que se formou na cratera de um vulcão inativo em Potosí.

DESERTO DO ATACAMA

Do outro lado da fronteira, já no Chile, conheço o Valle de la Luna, um dos lugares mais incríveis do Atacama, mas antes eu preciso dizer algumas coisas sobre esse deserto. Encarar o Atacama não é brincadeira. Mesmo contando com todos os artifícios que a modernidade nos proporciona, o calor do dia e o frio da noite serão desafios que você obrigatoriamente terá que vencer. Isso, sem falar na sequidão que invariavelmente o acompanhará.

Nessa terra, onde os recordes são muito mais que números impressionantes, os extremos que fazem desse lugar um apaixonante destino também complicam muito a história de qualquer ser vivo. Para se ter uma ideia, veja alguns dos mais espantosos números do Atacama: ele é considerado o deserto mais alto do mundo, sempre acima dos 2,4 mil metros de altitude; é, também, o deserto mais seco do planeta, com áreas onde não chove há mais de 20 milhões de anos; seu território, que começa em Paracas, no Peru, cobre todo o norte do Chile e tem mais de 105 mil quilômetros quadrados; e, para encerrar, em um único dia, a temperatura pode variar de zero a 40 graus.

Em San Pedro de Atacama, o passeio mais famoso é o que percorre parte do que eles convencionaram chamar de Valle de la Luna, uma referência ao acidentado relevo lunar. Montanhas arenosas, imensos paredões e dunas gigantescas estão onde os seus olhos mirarem. Essa paisagem seca, que se transforma dia após dia, inacreditavelmente já foi coberta pelo gelo dos glaciares, que desapareceram depois que a Cordilheira dos Andes se ergueu, como resultado do atrito entre as placas tectônicas. O tour guiado até o Valle de la Luna sempre começa no fim da tarde, e a primeira trilha vai me levar até a Cordilheira de Sal, formada a partir da movimentação do terreno onde ficava um antigo lago. As formações curiosas e a variação de cores – já que ela tem muitos minerais de origem vulcânica – merecem um tempo de observação.

Antes de seguir para o Valle de la Muerte, vejo ainda o anfiteatro, uma enorme formação rochosa arredondada que lembra mesmo um estádio de futebol ou o Coliseu, em Roma; e as Três Marias, um conjunto de formações rochosas que se ergue do nada.

Para vivenciar todas essas experiências, tive que vencer muitos obstáculos, alguns dos quais estavam em meu próprio corpo: a pele fica extremamente ressecada, a cabeça dói, a constante mudança de temperatura baixa a imunidade e o frio é congelante. Apesar de o corpo sentir as consequências da vida no deserto, a minha mente se manteve sã e livre.

14 de Outubro de 2019
Por Altier Moulinw

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